quinta-feira, 20 de dezembro de 2012



MINHA CASA

Minha casa habita em mim
do lado de dentro de mim
do lado de fora de mim
habita, do começo ao fim
no lado escuro de mim
no lado mais claro de mim
habita, sem começo e sem fim
no espaço infinito de mim

Amélia de Morais.

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AS FLORES

amanheceu eufórico:
o Girassol 
roda como louco,
a Sempre-viva
não fecha os olhos,
o Amor-perfeito 
está aos beijos,
O Narciso
não sai do espelho,
A Violeta
arroxeou-se,
A Mimosa
se derrama em mimos,
A Onze horas
ainda dorme,
A Maria-sem-vergonha
está toda exibida,
E o Cravo, coitado,
está tristinho,
brigou com a Rosa
e está ferido
no coração.

Amélia de Morais

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ENTERRO

Tão triste
ver passar a vida
sem vida,
vestida de preto, 
seguida por pessoas,
tristes, 
que passam lentamente,
sem vidas,
vestidas de preto.

Amélia de Morais


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FILME

De repente,
meus olhos acostumados
à visão do bem querer,
abriram-se
para a dor cruel
da realidade sem fim.
O que era belo
perdeu a cor,
perfume,
brilho.
Não é mais que um filme
em preto e branco,
sem roteiro,
sem direção, 
sem final feliz.
Sem final feliz.

Amélia de Morais

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domingo, 9 de dezembro de 2012




ABANDONO

É meu, seu abandono.
Me esquece do lado de fora,
de fora da vida,
de dentro da casa.

Minha vida tem dono.

Não é água rasa,
tem peso e medida,
tem rumo e tem hora.
É seu, meu abandono

Amélia de Morais

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ALGUÉM

Alguém passou aqui
e levou meu pensamento
levou meu momento
no exato instante
entre a cheia e vazante
no preciso espaço
entre a folga e o abraço
Alguém passou e afrouxou o laço.

Amélia de Morais

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A LUA E EU

Choro nas noites sem lua
Eu, menina triste, sem companhia

E nas noites enluaradas , linda e nua
A lua chora sozinha por não conhecer o dia

Amélia de Morais

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SOLIDÃO

Solidão,
não me dói a tua presença,
me dói antes,
a ausência de um amor.
Sólida solidão,
já te pego pelas mãos
e te trago pra meu mundo
de sonhos.
Sol- solidão,
me parece clara
a tua intenção de iluminar,
mas não me fales
do que não sabes,
não conheces a
doçura de uma companhia. 

Amélia de Morais

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domingo, 25 de novembro de 2012


(lena sotskova)


MELODIA

Nos cantos da rua
nos campos da lua
nas lutas da vida
nas muitas saídas
nos prantos derramados
nos risos gargalhados
nos silêncios da noite
nas dores do açoite
nas danças das mãos
nas pausas dos nãos 
nos espaços do tempo
nos tremores do vento
nos medos do novo
nos gritos do povo
nas verdades do dia
nos mistérios da magia
em tudo há melodia

Amelia de Morais

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SINA

Morrer pra nascer de novo
pequeno, frágil, ingênuo
e recomeçar sem lembranças
e representar sem cobranças
e referendar a esperança
de morrer sem nascer de novo.

Amélia de Morais. 

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MEIO A MEIO

Sou meio doce
meio sal
meio essencial
meio precoce
Sou agridoce
e natural
Sou meio posse
meio edital
e tal e coisa e coisa e tal

Amélia de Morais

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SEM CHÃO

Estrelas no céu
Pássaros no ar
Vida no tempo
Não sei como tê-los na mão
Se faço um escarcéu...
Se vão me consolar...
Se é só um passatempo...

Não seria como roubar-lhes o chão?

Amélia de Morais

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quarta-feira, 31 de outubro de 2012




CURA
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Ando comprando briga
cuspindo fogo pela venta
Ando vendendo a vida

Quero uma canção amiga
de verso doce e música lenta
Quero curar a ferida

Amélia de Morais.


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AQUI LÁ

Saí às ruas pra ver o sol
pra ver o dia, a lua, a noite
Saí pra me encontrar no Caribe
Saí pra me encher do ar que sopra por lá
Saí as ruas pra cantar
pra dançar, fazer sorrir o povo de lá
saí às ruas pra sambar maracatu
saí pra me espalhar
saí pra poder voltar.

Amélia de Morais

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DESCRENÇA

Não creio
na água que corre
não acredito
na lágrima que escorre 
não creio 
no gesto largo
não acredito
no beijo amargo
não creio 
no amor de castelo
não acredito
no sorriso amarelo
não creio
no corpo mudo
não acredito
no nada e no tudo.

Amélia de Morais

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AMIGO

Amigo é sol no inverno
amor antigo e eterno
olho no olho, mão na mão
amigo é muito mais que irmão

Amigo é ombro e ouvido
resposta em silêncio e ruído
gesto terno e sincero
amigo é tudo que sempre quero..

Amélia de Morais

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segunda-feira, 8 de outubro de 2012




DANÇO, DANCEI...

Danço sobre as cinzas
Um dia dancei sobre as brasas.

Amélia de Morais.

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O SONHO ACABOU

Quebra o copo
raspa a panela
risca o nome
fecha a janela
encerra a conta
acenda a vela
acorda do sonho

Não há vida paralela

Amelia de Morais

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SEM EIRA, NEM BEIRA

Sem eira, nem beira
entreguei-me à solidão
entreguei-me à melancolia
à bebedeira
da água da chuva
à ilusão
de chover no molhado
à covardia
de viver sem calor
Sem eira, nem beira
nunca fui, eu, verdadeira

Amélia de Morais

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(linda-armstrong-joan_reading-)


POR ONDE ANDA A SAUDADE?

Um vento ressabiado
soprou no meu ouvido
um silêncio cansado
um grito escondido
Eu me enchi de tristeza
esvaziei o baú da felicidade
De onde vem essa frieza?
Por onde anda a saudade?
Que canto triste me invade
roubando meu doce sorriso?
Esquece essa mera verdade
me conta a outra metade
da história que mais preciso.

Amélia de Morais
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sexta-feira, 21 de setembro de 2012



TRANSPARÊNCIA

Ver através de outros olhos,
ver coisas que só outros olhos veriam.
Olhar para o horizonte,
olhar para o mar
(e ver onde termina o mar e começa o horizonte).
Olhar a noite, o dia,
ver a lua, o sol.
Olhar as pedras, as cidades,
ver o mundo, enfim e reconhecê-lo,
sem nunca, antes, tê-lo visto.

É mais ou menos
como olhar a chuva pela vidraça
e no entanto, não estar
por trás da vidraça.

É mais ou menos
como se ver refletido num espelho
sem ter diante de si
espelho algum. 

Amélia de Morais

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PORQUE OS SINOS TOCAM

O que passou, passou
É sonho agora
Sombra fria que ficou
Do sol que foi embora
Voou entre risos cristalinos
Carregado entre nuvens brancas
Pelo mesmo vento que agora toca os sinos
Desta saudade bela e franca.

Amélia de Morais 

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MESMISMO

O mesmo riso fácil
o mesmo olhar frágil
o mesmo andar malemolente
o mesmo gesto insistente

Não embarco nesse braço
não me prendo nesse abraço
Meu rumo é a vida
estou cada dia mais atrevida.

Amélia de Morais


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AMORES

Fitas, versos e flores
o presente na caixa
com papel de mil cores.

Amélia de Morais

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terça-feira, 4 de setembro de 2012





MEIA-IRMÃ

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Não pense tanto
pra que esse pranto?
Repare no brilho da lua
se exibindo bela e nua.
Não fale mais que demais
as palavras podem ser letais.
Escute o som do silêncio lento
cantando a canção do vento.
Não durma no ponto
encare o confronto.
Desperte na nova manhã
a sorte é só meia-irmã.

Amélia de Morais.

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TROVINHA

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Sou a leveza do ar
a beleza do voar
a incerteza de quem sou
quando no outono estou.

Amélia de Morais

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COITADA

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Quando a noite nasce
virada pra lua,
de estrelas, recheada,
morre de inveja,
toda nua
a escuridão, coitada!

Amélia de Morais

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PARTIMOS

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Partimo-nos,
eu de você
você de mim
e nem nos demos conta

Partimos-nos
sem quê, nem porquê
sem meio, sem fim
saudade que não estava pronta

Partimos-nos
sem despedidas
vontades despidas
dores dormidas

Partimos de volta pra vida.

Amélia de Morais

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VEREDITO

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Meu silêncio
ecoa em algum lugar
ressoa no infinito
mergulha fundo no mar
é minha última palavra - veredito

Amélia de Morais.

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(Mulher pintura POETICA RONO FIGUEIREDO)


CANTEMOS

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Vida bela, quente e vermelha
chamas de paixão e magia
que se apagam, se esgotam
e renascem das cinzas

Vida, canção e centelha
versos de amor e euforia
que se encontram, se alimentam
se consomem em saudades ranzinzas


Amélia de Morais

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BAILE

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Bailo
sobre o infinito
sobre o que está escrito
sobre tudo o que foi dito
e repito
E o som vem da batida coração
vem da palma da mão
vem do corpo em exaustão
e paixão
Bailo
sobre o inaudito
em explosão.

Amélia de Morais

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(Viuva_da_Kissama)

DE GRITOS E CALMA

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Eu grito
para espantar a tristeza
E choro
para lavar a alma
Que me importa a fortaleza
do sorriso?
Quero apenas a falsa fragilidade
da calma.

Amélia de Morais








PARTIDA

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...e parte o navio,
lágrimas na terra.

Sem chama, o pavio
se dobra e enterra
a voz, o riso, o fio...

E tudo é vazio.

Amélia de Morais


quarta-feira, 8 de agosto de 2012




ALÉM...

Entardece o tempo em mim.
A vida aos poucos me abandona,
me rouba o sol da manhã.
Esquece que sou minha dona,
sou dona do meu tempo
e do espaço pra além de mim.

Amélia de Morais


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SOMBRA

O mar
embala o meu sonho,
acende minhas lembranças,
abranda meus sentimentos, assombra minha alma,
acorda minha vida.
As ondas
misturam-me às areias,
rolando meus pensamentos,
batendo em meus pés.
O sol
esquenta minha cabeça, eu,
branquinha que sou,
corro pra sombra.

Amélia de Morais

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EXPLOSÃO

Seduzir
o coração,
amar.

Revelar o vôo
da alma.

Flutuar de cabeça
pra baixo.

Explodir de sentidos
e catar no chão
minhas vontades.

E lá em cima,
deixar voar
os desejos satisfeitos.

Amélia de Morais

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DIAS
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Há dias de sol
há dias de chuva
há dias de sombra
há dias de seca
Há dias brilhantes
há dias opacos
há dias solidários
há dias solitários
Há dias de silêncio
há dias de música
há dias de alegria
há dias de melancolia
Há dias meus
há dias seus
há dias nossos 
há dias onde o nada habita
são os dias que não há.

Amélia de Morais

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domingo, 29 de julho de 2012





POESIA MANCHADA

O mar arrebenta nas pedras
ecoa no meu peito o estrondo
lanço-me sobre o papel
e ao momento respondo

São emoções tantas
e tantas e tantas palavras
que brotam e ao medo suplanta
fazendo surgir os versos

E os olhos presos à mão
se abrem às lágrimas
e entregam às palavras  de aflição
no papel, 
a mancha de libertação.

Amélia de Morais

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LEITO DE VIÚVA

No vento
chora a chuva
que molha a seca terra
como um sorriso de alento
no leito de uma velha viúva
que aos poucos se desenterra

Amélia de Morais 

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sábado, 21 de julho de 2012




UM PEDAÇO 

no escuro da madrugada
no silêncio do segredo
na distância da estrada
na agonia do medo
na certeza do tempo
na dureza do chão
no sussurro do vento
no carinho da mão
na proteção do escudo
no cansaço da jornada
no nada do tudo
no tudo do nada

Da minha alma um pedaço

Amélia de Morais


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ENTRELINHAS 49

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Sob a chuva forte
corpo molhado, encolhido
abandonado à sorte
o homem chora escondido

Amélia de Morais.

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MOMENTOS
.
É o vento que passa
arrancando de mim
arrepios

O vinho rubro na taça
as flores no jardim
vazio

E a noite que parte
deixando comigo
madrugada

No ar o estandarte
o pão e o castigo
jornada

E o tempo que grita
o silêncio futuro
no espaço

Nesta casa bendita
os olhos no escuro
estilhaço

Amélia de Morais

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ENTRELINHAS 50

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A alegria está disseminada
os homens passam cantando
as mulheres passam sorrindo
as crianças passam sonhando
e a fúria segue dormindo.

O mundo dança ciranda

Amélia de Morais

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DIA DE SOL


O sol radiante surgiu entre as nuvens
Gotas de amizade caíram em minh’alma
Palavras, canções e outros tantos bens
Fizeram-me enxergar, com calma
Além, muito, muito além dos homens!
Agora caminho, aberta, esperta, certa.

Amélia de Morais

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MARÉS

Imerso em saudade
emerso da paixão
dourado de sol
iluminado pela lua
Enchente - fluxo
Vazante - refluxo
Dorme - passado
Acorda - presente

A vida segue sim
segue não - final.

Amélia de Morais

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