sábado, 23 de junho de 2012


(Keith Mallet)

A VIDA
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A vida tem escrito
Nos livros de cada um
As dores, os conflitos
Os amores em negrito
Os gestos, os veredictos
Os lugares favoritos

A vida tem guardado
Pras histórias de todos nós
Surpresas maravilhosas
Contos, poesias, prosas
Tentativas desastrosas
Dias ruidosos, noites silenciosas

A vida, estrada sem medida
Sem tempo, sem certeza
Às vezes rio sem correnteza
Às vezes mar de grande beleza
Por vezes rude, sem gentileza
Por vezes simples em singeleza
Nos entrega à morte, sem malvadeza
Girando assim, a roda da natureza.

Amélia de Morais

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Amar, verbo solar

Amanheces
como ninguém jamais amanheceu,
às vezes docemente,
às vezes gulosamente,
mas sempre grande,
bonito,
gostoso.
Contornas todo o litoral,
sobes e desces pequenas colinas,
extensos montes,
como quem conhece o segredo
do mapa.
Fazes brilhar,
fazes colorir
toda a viagem
por um mundo fantástico,
povoado de tudo e nada,
através de um maluco trem.
No entanto,
ao entardecer
uma nuvem cobre seus raios
e a terra,
impaciente,
não espera pelo descobrir do brilho
e adormece. 

Amélia de Morais

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HINO À VIDA

É estranho
dizer a si mesma
que morreu novamente.
É inquietante,
ainda assim,
ouvir as batidas do coração.
Molho os pés
e as mãos, me sinto viva.
Me sei morta,
hoje,
apenas. 

Amélia de Morais

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O BRILHO QUE CAI
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Estrela
voando no céu
pousando estrondosamente
nos olhos da Terra amada
fazendo brotar, ao léu
a noite na madrugada
vagarosamente

Amélia de Morais

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segunda-feira, 11 de junho de 2012


AOS QUE VIRÃO

Choro sobre as águas sujas
sobre as queimadas no norte
sobre o verde que enferruja
sob o céu cinza da morte

Choro a tristeza do rio
Choro a ausência do peixe
a ruína do casario
e a voz que não se queixe

Clamo aos deuses oniscientes
e aos homens silenciosos
que despertem os inconscientes
que expulsem os perigosos

A Terra é o presente dos que ainda virão.

Amélia de Morais 

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A MOÇA DE VERMELHO

Andou entre os pingos
da chuva
uma mancha vermelha
sob o guarda-chuva
solitária na cortina de água
pensando nos passos que faltavam
chorava o pranto da sua mágoa

Amélia de Morais

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DRUMONNIANDO

Amor, bicho danado
que corre, pula, salta
que gruda, coça, arde
que some e faz falta
que surge mais tarde
abrindo ou fechando ferida
entrando ou saindo da vida
deixando na alma a cicatriz
que às vezes é só lembrança
mas nem sempre é feliz.

Amélia de Morais

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