domingo, 29 de maio de 2011



PRATA DA CASA

A prata da casa
brilha suavemente
sem palavras de casaca
brilha humildemente
Discorre com sutileza
Descreve com alguma beleza
e, às vezes, com certa dureza
É o exercício da paixão
do verbo pela ilusão

Amélia de Morais



VERSO VERDADEIRO

Ainda que implacável
e verdadeiro
queria encontrar
entre os dedos
a poesia triste
que traduzisse minha alma
nos versos rudes
que metem medo.

Amélia de Morais



INSPIRAÇÃO II

No silêncio da palavra
nasceu minha poesia
Naquele breve instante
entre ouvir e calar
E a mão, atenta
escreveu o verso

Amélia de Morais



CANÇÃO AFINADA

Me vale a voz afinada
nos momentos de puro amor
Derramo então os meus versos
entoados em melodias
Declamo, clamo, amo
na voz muda do olhar
toda a paixão do momento
que dura um tempo qualquer
o tempo exato
entre o primeiro e o último acorde
até que o sonho me acorde

Amélia de Morais



PRAZO DE VENCIMENTO

Venci os muros
que me escondiam,
os moinhos
que me espalhavam,
o silêncio
que me queimava.
Venci a distância
que me afastava,
a tempestade
que me impedia,
a certeza
que me corrompia.
Venci o medo
que me interrompia,
a saudade
que me amolava,
as cordas
que me amarravam.
Sou eu os olhos meus
Sem prazo de vencimento.

Amélia de Morais




A SOLIDÃO

A solidão
me dá a fantasia
me dá a canção
(ainda que triste)
me dá a poesia
(que pequena, resiste)
me completa
me joga na escuridão
ao mesmo tempo
que me faz poeta

Amélia de Morais




ATIRANDO PEDRAS NO RIO

Sem hora pra nada
sem medo do tempo
sem rugas ou rusgas
sem musgos
pedra limpa
atirada na água
saltitando na superfície
brilhante e lisa
Minha mão
atira a pedra
e acena em adeus
sem esperas
sem esperanças
mudanças acontecem
um passo
outro espaço
Sem hora pra nada

Amélia de Morais