segunda-feira, 9 de maio de 2011


MARÉS

E o mar me invade
me lambe, preenche
Maré alta - paixão
Maré baixa - saudade

Segredos de areia
nas noites de lua
Na terra, sou ilha
na água, sereia
no ar, maresia

Arrebentação e calmaria


Amélia de Morais



LÁ SE VAI SETEMBRO

Setembro já se vai
arrastado por agosto
levando a chuva e o vento
e o sol agora é rei posto

Outubro traz novamente a confiança
outros desejos e venturas
e aquela esperança infinda:
depois da tempestade, a bonança


Amélia de Morais




ABANDONO II

Deito-te, então
entre os meus braços
antes que a noite chegue
e com ela, a solidão.

Deixo-te, então
entre os lençóis
antes que o dia chegue
e com ele, o perdão


Amélia de Morais


REI MORTO...REI POSTO

Cai o rei
sobre o tabuleiro.
Nu.

Sobra o rei
entre tantas cartas.
Vil.

Dança o rei
no maracatu.
Mal.

Paga o rei
o seu caro trono.
Réu.

Parte o rei
da cocada preta,
Só.


Amélia de Morais


TEMOR DECLARADO

O mar não tem cabelos
pra eu agarrar,
não tem mãos
pra me amparar,
só tem colo
pra eu dormir
o sono da eternidade

Prefiro-o como paisagem,
como quadro na janela,
como música pra sonhar.

Deixe-me apenas
versar suas cores,
seu incansável movimento,
sua beleza infinita.

Assim somos
vizinhos e amigos,
eu e o mar.


Amélia de Morais



SALIÊNCIA

Saliente,
ela apareceu na noite
despudoradamente nua
ela brilhou sobre o mar
esplendorosamente lua

Amélia de Morais



VESTIR-SE DE POESIA

Vestido assim,
da cabeça aos pés,
acontece pouco.
Às vezes sou mouco
às vozes da poesia,
às vezes não há vejo
e nem sempre a sinto
então, eu minto.

Já vesti as luvas da poesia
e ela brotava das mãos
Já coloquei o chapéu dos versos
eles queimavam meu juízo
Já calcei os sapatos da rima
nasceram poemas andarilhos

Me visto de poesia
mas é roupa curta
de chita estampada de rimas pobres
vestido de baile
é raro ingresso das noites de festa
Quase sempre estou nu
espiando as palavras pela fresta


Amélia de Morais