terça-feira, 3 de maio de 2011



POESIA DA VIDA INTEIRA

Dorme nos meus braços
a força que um dia tive
e sobre os meus pés
a dança que um dia fiz

Dorme na minha cabeça
a memória imediata
e no meu rosto
o sopro da juventude

Dormem sobre o papel
as dores da vida inteira
descritas com discrição
nos verso da minha poesia

Amélia de Morais


POESIA II

A essência
com que perfumas
minha mão
é o que preciso
pra seguir versando

Amélia de Morais



(Tela Mulher musa - Salvador Dali)


PRECONCEITO

O homem feriu o homem
com a força da palavra
com a forca da exclusão
com a faca do desprezo

Um pensamento podre
habita na rede de insultos
o homem cortou o laço
e o sangue cobriu esse espaço

Meu umbigo chora.


Amélia de Morais


NOSSOS ERROS

Nossos erros
são flechas atiradas
sem mira, sem visão.

São serros
vincados nas faces
dos dias que ainda virão.

Nossos erros serão
os calos das nossas mãos,
a nossa história escrita
que o tempo não nos credita
e o homem não acredita,
desdita, evita,
enjeita, rejeita
e vomita.

A lágrima na solidão.


Amélia de Morais


TEMPO DE ANJO

Um anjo pairou no ar
suspenso na eternidade
como que meditando...

Quando o tempo dormiu
às portas da madrugada
o dia foi noite tão somente...

E o anjo sonhou ser gente


Amélia de Morais


SEM VISÃO

E os cegos
tapam seus ouvidos
e engordam sua escuridão,
agarram-se às paredes
das sombras
e ali permanecem
tatuados
até que se apaguem
ao longo do tempo,
sem histórias pra contar.
E o sol brilha lá fora
lindo,
livre, livre, livre...

Amélia de Morais


REGRAS

As regras
são feias,
magras.
São teias,
megeras,
esferas sem fim.
Enfeitadas
com belas palavras,
são amarradas
no léxico, na ordem,
num papel carimbado
pregado às paredes.
As regras
são chatas, por profissão,
exceto uma:
a sua exceção.


Amélia de Morais