sexta-feira, 19 de novembro de 2010

FENDAS

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Botões de abrir e fechar
olhos de ver e sonhar
janelas de espiar o mundo

abrem e fecham em segundos
lavam as dores da gente
ou secam em dores latentes

Amélia de Morais

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ENTRELINHAS REVELADAS
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Vou lhes contar um segredo
Que guardo na palma da mão
Nos dedos curtos de herança materna
Na alma poética de herança paterna
Não sou poeta, não
Fazer versos é só um brinquedo
Que ganhei ainda menina.
Eu sempre quis ser dançarina,
Mas um vento atrevido
E me soprou no ouvido
Que o mundo é muito maior
Nas páginas de um livro versador
Desde então, danço com a poesia
Mas sou apenas sua companhia

Amélia de Morais


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DO PÁSSARO QUE PASSA


Pássaro brilhante

Voando cadente

No meu verso cantante

Do teu canto carente

Pássaro azul

De vôo ritmado

Meu verso é lundu

Pra teu canto rimado

Pássaro que passa

Nem sabe que é tema

Nem sabe que enlaça

Meu verso, poema.

E leva nas penas,

No bico, nas asas

Essa minha cantilena

Ainda em brasas.


Amélia de Morais

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O INSTANTE DO NADA
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tu és
o vácuo
o instante do nada
o silêncio da dor
a carta sem resposta
a tela branca
o poema não escrito
a flor sem corola
a ostra vazia
quando se espera uma pérola

Amélia de Morais

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DESTINO, MENINO TRAQUINO


O destino
menino manhoso
nem negro, nem branco
nem mesmo albino

me lança na vida
no circo do mundo
trapézio sem redes
suspiros, ao fundo

O mesmo destino
traquino, amoroso
nem forte, nem fraco
nem mesmo franzino

me acolhe no colo
na rede, balança
pra festa convida
e comigo dança

Amélia de Morais

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RENDIÇÃO

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Corta, fere, sangra
arranca do coração
santa hora santa
a hora da conciliação.

Abraça, aperta, consola
esmola o meu perdão
santa hora santa
a hora da rendição.

Amélia de Morais

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SOSSEGUE!

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Não me acorrente
os pés,
minha alma é leve,
flutua.
O gesto é meu, breve,
a saudade, é sua.
Quero correr campos,
nadar mares,
voara céus,
não me cubra o rosto
com véus!
Meu amor é livre, belo.
Durma, sossegue,
seu sono, eu velo.

Amélia de Morais

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