sexta-feira, 19 de novembro de 2010


POR UM FIO
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A vida por um fio
invisível, risível fio
às vezes, forte
às vezes, frio

Seguimos marionetes
rindo, chorando
às vezes, tristes
às vezes, sonhando

Chove sobre nós
Pássaros e flores
às vezes, luto
às vezes, cores

E deitamos finalmente
quando a alma nos espreita
às vezes, sono
às vezes, fim de colheita

Amélia de Morais

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INSENSATEZ

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Mundo louco
raso e pouco
tanto e profundo
louco mundo

crianças abandonadas
abandonam o futuro
não conhecem fadas
fadadas ao escuro

mundo maluco
velho e caduco
novo e fecundo
maluco mundo

jovens armados
armam o destino
sentem-se libertados
e morrem clandestinos

insensato e louco mundo
a pobre vida por um segundo
por um segundo apenas
Pena!!

Amélia de Morais

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(Pintura de Camila do Rosário)

NOTA DE JORNAL

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Rainha sem dente
tonta e desbocada
tem coroa de ouro
tem pontes de porcelana

Rainha demente
de louca chamada
entrega tesouros
em troca de uma cabana

Rainha saliente
tem desejos de ser amada
aceita qualquer calouro
depois de uma carraspana

Rainha experiente
manda e não quer ser mandada
pinta o cabelo de louro
quer um reino pra ser tirana

Rainha solitariamente
chora na trovoada
a saudade de um certo mouro
que fugiu com a cigana

Rainha inconsequente
se joga na batucada
toda vestida de ouro
não é mais uma soberana

Amélia de Morais
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MEU CANTO

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Meu canto é riso
de siso a siso
Meu canto é pranto
de desencanto

Meu canto é verso
solitário no escuro
Meu canto é terço
parte do meu futuro

Meu canto é pedido
à estrela cadente
Meu canto é revestido
de sol nascente

Meu canto é grito
de solidão
Meu canto é escrito
de grão em grão

Sonho um canto-água de chuva
no solo seco do sertão
Meu canto é consolação.

Amélia de Morais

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QUEM É VOCÊ?

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Você é sol e lua
estrela boa e pura
calma de noite nua
vento de ternura

Você é gesto e voz
mãos que descortinam
a luz que brilha em nós
canto que me ilumina

Você é sonho tão intenso
que às vezes eu paro e penso
que é quase realidade
não fosse essa saudade!

Amélia de Morais

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DESPONTAR...

Na plantação dos quereres
desponta um novo amanhã.

Quero plantar pedras
para colher o teto
dos sem lares.

Quero plantar água
para colher a chuva
no sertão.

Quero plantar esperança
para colher as flores
da certeza.

Quero plantar alegria
para colher a beleza
do sorriso.

Quero plantar o sol
para colher o despontar
de um novo dia.
Todo dia.

Amélia de Morais

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MATERNIDADE

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Anjos deitaram crianças

nos meus braços

Eu os chamei de filhos.

Alucinantes momentos

de doce incredulidade as amamentações.


Doces encontros

eu, outra pessoa, mãe

eles, pequenos pássaros sem asas.


Lá se vai mais um ano

vejo os pássaros livres dos bicos dos seios.

Criaram asas, voaram.


Amélia de Morais

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